Deus SEMPRE escreve certo por linhas tortas!
A intenção era passar no parque do Flamengo, porque a Raquel, uma amiga muito querida, queria muito adotar um gatinho. Como a nós já sabíamos que uns “animais” sempre abandonavam seus bichinhos por lá, resolvemos ir até eles e quem sabe achar um gatinho para a minha amiga adotar.
Em lugares como esse tudo é muito triste. São inúmeros gatos abandonados. Às vezes bem de saúde, uns machucados, filhotes, gatos adultos, alguns debilitados demais e outros tentando fazer de tudo para cada vez mais chamar sua atenção e quem sabe ganhar um lar.
Foi então que eu encontrei Homero, mas até aquele instante eu não sabia que ele seria o MEU Homero e ele também não sabia que ganharia um lar. Ou como uma das moças que cuidam dos gatos do parque disse: “Ih esse ganhou na mega sena da virada”.
Homero era o gato cego do grupo, o possivelmente rejeitado para qualquer tipo de adoção, mas o que mais precisava de um lar e de cuidados. Foi com o coração partido que eu olhei aquela miniatura de gato, cego dos dois olhos, brincando como se nada tivesse acontecido, como se o mundo fosse perfeito daquele jeito que ele “enxergava”. Ele era o mais feliz do “grupo”.
Logo, eu que tenho um coração muito frágil quando o assunto são bichinhos abandonados, me desabei em lagrimas. Era uma mistura de pensamentos que eu não conseguia conciliá-los naquele momento. Pensamento do tipo: “Como pode alguém fazer isso com uma criatura tão inocente?”, “Porque isso tinha que acontecer com ele?”, “E agora o que eu faço?”, “Levo pra casa? Mas ele precisa de cuidados especiais...”
Eu já tenho nove gatos e dois cachorros, naquele momento concordei comigo mesma que mais um não faria a menos diferença, mas ele não era mais um gato, ele era o Homero, o especial e que obvio, precisaria de algum cuidado diferente dos nove gatos independentes que eu tinha em casa.
Liguei para a minha mãe (outra frágil demais) em prantos contando a historia de gato cego e abandonado e que segundo eu ouvi a moça que cuida do parque falando, poderia morrer a qualquer momento, já que as condições ali do parque onde eles dormem e comem são precárias. Minha mãe não pensou muito e antes de eu acabar de tentar contar a historia, ou pedir permissão para adotar um gatinho, ela disse: “Pega ele, filha. Leva ele pra casa que nós vamos cuidar dele.” Não sabia como um super herói se sentia quando salvava uma vida, mas naquela hora eu descobri, pois me senti uma super heroína. Eu iria salvar ele. Era uma mistura de alivio, medo, felicidade, tristeza...
Sai de lá com o Homero louco dentro da casinha, direto para o veterinário. Percebi o quanto ele estava com medo, pois mordia a grade da casinha como quem diz: “me tira daqui, por favor,”. Tente acalmar ele, peguei a mãozinha dele e fiquei fazendo carinho, incrivelmente Homero ficou quietinho e logo de cara eu percebi o quanto ele era meigo e carinhoso.
Homero tem um machucado na cabeça, acredito que foi por maus tratos. O olho direito dele é fechadinho e no esquerdo cresceu uma “carne” fechando a visão dele.
O veterinário disse que esse olho esquerdo, ele realmente perdeu, pois essa “carne” foi a parte de trás do olho que veio para fora furando o mesmo, pois é, nada bom de se escutar mas a pura realidade. A realidade de um gatinho que possivelmente lutou um pouco para chegar aos dois meses.
Sai do veterinário com o coração partido. Era uma mistura louca de muitos pensamentos bons e ruins.
Como tenho nove gatos, o veterinário pediu que Homero ficasse separado devido a certas doenças que ele poderia transmitir.
Eu repito, tenho nove gatos. Todos, eu peguei na rua e nunca tive problemas de adaptação ou de doenças gravíssimas. Mas deixar o novo integrante da família separado confesso que por alguns minutos me deixou aliviada, uma vez que estava muito chocada e preocupada com as condições dele.
Como a casa é grande e nós não temos carro pensei logo que a garagem seria um bom lugar para Homero ficar por um tempo.
Tudo foi realmente muito rápido e inesperado... Muito chocante e comovente. Então acredito que só me dei conta de tudo quando entrei em casa e abri a caixinha para Homero conhecer a garagem.
Chorei por horas... Pensei como seria tudo relacionado a ele. Será que eu conseguiria cuidar de um ser tão pequeno, indefeso e que iria precisar muito de mim? Rezei, pedi ajuda a São Francisco de Assis, pedi ajuda a Deus.
Sentei na garagem um pouco com Homero, ele deitou no meu colo e ronronava sem parar e me olhava como que diz: “Não chora, ta tudo bem.” Mas confesso que foi muito difícil esse primeiro dia.
Nunca passei por algo parecido nos meus míseros 23 anos de vida, já tive muitos bichos, perdi alguns, mas aquela situação por algum motivo era diferente pra mim. Algo me dizia lá no fundo que Homero era diferente de tudo e de todos. Diferente não por ser cego, mas por fazer nascer em mim sentimento puro e verdadeiro que naquele momento da minha vida estava apagado.
Comprei a melhor ração, dei todos os medicamentos receitados pelo veterinário, preparei a caminha mais fofa e confortável. Tudo para me certificar de que Homero ficaria bem.
E ele realmente se saiu muito bem. Usou a caixinha de areia como quem diz: “Ih, sou craque nisso”.
E nosso fim de tarde foi assim, eu do lado dele tomando conta de cada passo que era dado.
Quando minha mãe chegou do trabalho, eu continuava lá sentada com o meu Homero.
Mamis chegou com presentes para mim e para ele.
Para Homero: caixinha de areia, pote de comida e de água e uma bolinha barulhenta demais rs
Pra mim: Um cartão com as mais belas palavras e uma imagem linda de São Francisco de Assis.
E assim foi o fim da nossa noite. Eu como o coração partido por ter que deixar meu pedacinho de pêlo na garagem, sozinho...
Naquela noite acordei algumas vezes e desci para ver como ele estava. E percebi que estava me preocupando demais “à toa”, Homero dormia de barriga pra cima com os braçinhos esticados, despreocupado com o mundo. Acho que ele estava se sentindo numa suíte presidencial rs
E no fim, quando me rendi e decidi dormir de verdade, deitei e alguns pensamentos tomaram conta de mim.
Homero veio para despertar sentimentos que eu nunca tinha descoberto em mim. Um bichinho tão pequeno pode fazer isso? Pode sim, e pra quem não acredita eu afirmo que pode mesmo. Pois o sentimento que eu hoje tenho por ele é único e inexplicável.
E para finalizar eu queria agradecer a minha mãe e a dinda do Homero,tia Raquel. Obrigada pela força e pelas palavras quando o mundo ficou contra minha atitude.
Amo vocês e o Homero agradece o carinho.
Foto do filho mais lindo e carinhoso do planeta:
Homero ganhou esse nome em homagem a tia Raquel. No natal ganhei um livro dela de presente que contava a historia de Homero, um gatinho cego. Nada mais justo ele ganhar esse nome, não acha?
Carol Monteiro